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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

GALVÃO, Ana Maria de Oliveira: O LEITOR ∕OUVINTE NAS PÁGINAS DOS FOLHETOS: UM ESTUDO DO TEXTO

·         A autora Ana Maria de Oliveira Galvão analisou o texto dos poemas de 8 folhetos publicados entre a dec 30 e 40 buscando neles  indícios do leitor visado pelo autor. P. 63

1.      O bárbaro crime das mattas da Varzea, assinado por João Martins de Athayde (Recife, 1928)
2.      Historia da princesa da pedra fina, assinado por Athayde (Recide, 1944)
3.      A batalha de Oliveiros com Ferrabraz, assinado por Athayde  (Recife, 1946)
4.      O cachorro dos mortos, assinado por Athayde (Recife, sem data)
5.      A lamentável morte de Getulio Vargas, sem autoria (Sem local, 1954)
6.      O pavão misterioso, sem autoria (Recife, sem data)
7.      A chegada de lampião no inferno, assinado por José Pacheco (sem local, sem data)
8.      As proezas de João Grilo, sem autoria (sem local, sem data)

·         A 2ª analise foi de um folheto que se baseia em um fato real que esta no fim do capitulo. P. 63

·         Buscou detectar marcas da oralidade (como a presença do discurso direto em relação ao indireto na construção do texto; o uso e a importância conferida aos adjetivos na elaboração do poema; a presença do elemento mítico-religioso; a questão da proximidade ou não com o interlocutor \ leitor; a utilização de um dialeto oral regional nas histórias etc.) P. 63

·         Buscou levantar hipótese acerca do tipo de raciocínio ou operação exigido do leitor para que ele pudesse fazer uma leitura fluente, sem maiores dificuldades. (considerando as antecipações e inferências, no “caminho narrativo”, impostas pelo texto ao leitor suposto) P. 63

·         Na analise dos folhetos outras fontes foram utilizadas com o objetivo de melhor compreender os próprios textos dos poemas. P. 63

·         A autora procurou reconstituir o caminho percorrido pelo poeta para construir sua narrativa através da analise das capas, dos momentos em que o poeta se dirige diretamente ao leitor e da primeira e da ultima estrofe do poema (em geral os escritores tendem a nelas concentrar os elementos que consideram mais importantes no texto.) p. 66

·         As capas, os títulos e o numero de paginas dos poemas, [...] os clichês utilizados nas capas dos folhetos, geram no leitor uma serie de expectativas que o fazem antecipar alguns elementos da história que será narrada e em que subgênero se insere no universo do cordel. P. 66

a.      O titulo anuncia o sub gênero do folheto
b.      O número de paginas auxiliam na percepção do gênero
c.       A capa antecipa as expectativas do leitor em relação ao conteúdo da história. P.67
d.      A capa traz elementos que permitem ao leitor realizar um julgamento dos personagens; a gravura “antecipa” o conteúdo da história. P. 67

Analise dos Folhetos:

1.      O bárbaro crime das mattas da Varzea por João Martins de Athayde (Recife, 1928)
Ø  8 paginas (o numero de paginas auxilia o leitor a percebê-lo com um folheto de “acontecimento”)
Ø  E o único do grupo analisado que traz abaixo do título um resumo ou uma explicação da historia: “o grande crime da noite de 29 de maio de 1928, praticado por Ladisláu Soares de Medeiros (Láu) em que foi victima sua amante Maria Firmina da Conceição (Dedé)”, dessa forma o leitor sabe que se trata de uma narrativa de um crime que havia ocorrido em uma data precisa, em que foram protagonistas personagens determinados. P.66
Ø  Capa feita de zinco com um homem negro cravando uma faca no peito de uma mulher branca. (Esses elementos permitem ao leitor realizar um julgamento dos principais personagens. P. 66
Ø  Antes de começar a ler ou ouvir o poema, o leitor já é capaz de inferir, a partir do titulo e da ilustração, sobre o tema, o enredo. P. 66
Ø  Esse crime também foi tema de uma musica bastante popular na época. P. 66

2.      O cachorro dos mortos por João Martins de Athayde (Recife, s.d.)
A ilustração é composta de dois clichês de xilogravura: em primeiro plano, um cachorro junto a três cruzes e a uma árvore; no detalhe, no lado direito e superior da página, em forma de círculo, o mesmo cachorro avançando sobre um homem bem vestido ao lado da mesma árvore.  P.67
A capa traz alguns elementos que o leitor \ ouvinte poderia inferir sobre a história: o personagem principal parecer ser um cachorro e a presença da morte.

Ø  É um romance porque possui 32 páginas. P 67
Ø  Reúne elementos sobrenaturais, o poder dos animais, o destino, fatos corriqueiros e universais – amor, traição, vingança, fidelidade, justiça, crime, verdade. p. 67

3.      A batalha de Oliveiros com Ferrabraz por João Martins de Athayde (Recife, 1946)

Ø  A capa traz uma cena em que imponentes cavalos, alguns cavaleiros cumprimentam damas de uma provável corte. A ilustração reitera, assim, para os possíveis leitores, o universo no qual a história se insere: o dos cavaleiros \ guerreiros, o das cortes medievais. P. 68
Ø  Enfrentamento (batalha) entre um cristão e um mouro, personagens conhecidos do universo popular
Ø  32 páginas

4.      A chegada de lampião no inferno por José Pacheco (s.l., s.d.)
Ø  8 paginas
Ø  Considerado clássico do gênero
Ø  Capa com xilogravura simples, homem de chapéu, calça e camisa; o diabo com duas cabeças; acrescentam pouco ao titulo. P. 68
Ø  O titulo do folheto auxilia o leitor a situá-lo no conjunto dos folhetos: não se trata da narração de um episodio ocorrido, como tantos outros publicados sobre Lampião, não se trata também de um romance, já que Lampião era um personagem real. P. 68
Ø  A partir do titulo o leitor presume que se trata de um texto irônico, jocoso. P. 68
Ø  O ritmo das estrofes é muito rápido, favorecendo a memorização. P. 68

5.      A lamentável morte de Getulio Vargas, sem autoria (s.l., 1954)
Ø  8 paginas
Ø  Faz parte de uma serie de folhetos sobre a morte de Getulio Vargas
Ø  Capa é o retrato de Vargas de meio corpo, vestindo uniforme e sorrindo. Para esse folheto, o leitor não precisava realizar grandes inferências sobre o quê tratava, pois a morte de Vargas foi noticiada por meios de comunicação.
Ø  Lamentável expressa a opinião do autor e possivelmente dos leitores. P. 68

6.      O pavão misterioso, sem autoria (Recide, s.d.)
Ø  Romance de 32 páginas
Ø  Parece ter sido primeiro uma composição oral, para depois se transformar em texto escrito
Ø  É um clássico da literatura de folhetos
Ø  Capa impressa em modo de paisagem, traz a xilogravura de um pavão, para o leitor é difícil inferir sobre o conteúdo da história apenas pela capa. P. 69

7.      História da princesa da pedra fina por João Martins de Athayde (Recife, 1944)
Ø  32 paginas
Ø  A história traz elementos de contos da tradição oral
Ø  Capa tem uma fotografia de uma menina de meio corpo, com um sorriso discreto e flores no cabelo. O leitor de folhetos sabe que não se trata da representação fiel de uma princesa P.69
Ø  Essa capa pouco se relaciona com o conteúdo do poema. P.69

8.      As proezas de João Grilo, sem autoria (s.l., s.d.)

Ø  24 páginas
Ø  Histórias contadas através da oralidade
Ø  João Grilo pertence a família de anti-herois de longa tradição
Ø  Capa é a foto de homem de meia idade, elegante, como olhar perdido não se assemelha a descrição dada no poema (reaproveitamento de clichês)  p. 69

EM TODOS OS FOLHETOS AS PRIMEIRAS ESTROFES PARECEM CUMPRIR O PAPEL DE APRESENTAR OS PRINCIPAIS ELEMENTOS DO POEMA, AS SEGUINTES CONSTITUEM O DESDOBRAMENTO. P. 70

A utilização de um dialeto oral regional p. 76
Ø  Em todos os folhetos analisados, verifiquei a utilização de um léxico, de expressões e de uma sintaxe típicos do dialeto regional oral. A pontuação utilizada parece muitas vezes obedecer mais ao ritmo da fala, declamatória ou não, do que às exigências da leitura. P.76
Ø  Alguns versos contêm expressões típicas da linguagem oral (a autora cita três exemplos pags 76, 77)

A presença dos diálogos, dos discursos diretos p. 78
Ø  A utilização do discurso direto, diálogos servem para aproximar o texto das narrativas orais. P.78
Ø  Discurso direto utilizado para exprimir a voz\pensamento do personagem, descrição de conteúdo de cartas ou de outros objetos de leitura. p. 78
Ø  A autora cita dois exemplos pags. 78

O papel dos adjetivos p. 79
Ø  “através dos adjetivos é possível realizar suposições a respeito dos personagens e da história, do enredo.” P. 79
Ø  Situar o leitor de que lado os personagens estão (do lado do bem ou mal) p. 80

Ø  O processo de adjetivação parece dar tom dramático e hiperbólico, causando um grande impacto emocional. P. 80

A presença do elemento mítico-religioso p. 80

Ø  O elemento sobrenatural é na verdade constitutivo das narrativas orais tradicionais e do imaginário popular, de forma geral. Auxiliando o herói na superação dos obstáculos p. 81
Ø  As narrativas orais obedecem, como têm demonstrado estudos que se detém sobre as relações entre oralidade e letramento, a certos padrões de composição que auxiliam na performace dos poetas, na memorização e na incorporação de temas e valores por partes da audiência. P.82
Ø  Ex A batalha de Oliveiros com Ferrabraz – luta (pela conversão) entre cristã e um turco. P.82

A enciclopédia do leitor p.83
Ø  A enciclopédia do leitor visado pelo poeta e \ ou editor refere-se ao local onde se passam as histórias ou a outros lugares mencionados no texto. p. 83
Ø  Folhetos de acontecimento precisam delimitar os cenários e as datas de suas historias
o   Ex. O bárbaro crime das mattas da Varzea p83
Ø  O fato de o folheto trazer a data do episodio que narra também contribui para que, no processo de recepção, o leitor \ ouvinte de folhetos compreenda a história dentro de um universo cotidiano, temporal, circunstanciado, apesar da presença dos elementos universais. p. 83
Ø  Segundo Raymond Cantel (1993) a referencia a outros locais e a outros tempos nnos romances de cordel tem uma função, sobretudo, de deslocar o leitor para outro mundo, o mundo do maravilhoso. P. 84
Ø  A autora cita exemplo da princesa da pedra fina um reino distante  semelhante ao conto de fadas.

Folhetos e jornais: uma analise comparativa do ponto de vista do leitor p 87

Ø  A autora buscou encontrar elementos para a compreensão de quem era o leitor\ouvinte de folhetos, comparando o texto do folheto a outro tipo de texto, o jornalístico. P 88
Ø  Uma primeira diferença entre as noticias veiculadas no jornal e o fato narrado no folheto parece obvia. No folheto, o leitor tem toda historia em um único espaço: o resumo dos fatos em forma de uma narrativa completa, com começo, meio e fim, e, ao mesmo tempo, a opinião\julgamento do autor. Já o jornal vai dando as noticias sobre o fato à medida que ele vai sendo esclarecido, em tempo real. P. 88-89
Ø  A ênfase do narrador está nos personagens principais envolvidos no caso e na narrativa. No jornal a ênfase esta nas investigações. P. 90
Ø  O que parece importar para o suposto leitor é, pois , menos a atualidade ou a informação sobre o fato\a noticia, e mais os valores universais rememorados pela história, nos quais ele crê e deles se alimenta cotidianamente. P. 90

CONSIDERAÇÕES FINAIS

v  A maioria das histórias tem características de uma narrativa p. 91
v  As histórias são previsíveis e as vezes redundante p. 91
v  As primeiras estrofes servem para o poeta introduzir os elementos principais da historia p. 91
v  As últimas estrofes tem caráter conclusivo p. 91
v  Presença da oralidade (dialeto oral regional) p. 91
v  Uso expressivo de adjetivos p. 91
v  Recorrência ao elemento mítico-religioso p. 91
v  Repetição de esquemas narrativos (tornando alguns fatos previsíveis) p. 91
v   [...] a literatura de cordel é um genero originário das cantorias. [...] Aos poucos seu público foi se tornando menos escolarizado e de origem rural, possuindo pouco contato com o universo letrado e demandando uma literatura que utilizasse uma linguagem mais próxima ao oral. P. 92
v  Os supostos leitores \ ouvintes das histórias de cordel parecem não estar interessados em se informar sobre um fato ou conhecer o enredo de uma história, mas, através da literatura, reforçar certos valores de caráter mais universal que parecem compor seu mundo. P. 92

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